
Convêm, no entanto,
explicar como surgiu este brilhante serviço que foram as bibliotecas
Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, que prestaram um serviço público
de excelência ao longo de 44 anos. Surgiram de uma anterior iniciativa do
escritor António José Branquinho da Fonseca, nascido a 4 de Maio de 1905, em
Mortágua, conservador-bibliotecário do Museu Biblioteca do Conde Castro
Guimarães em Cascais, no ano de 1953. Foi nessa altura que surgiu o primeiro
carro biblioteca-circulante que se deslocava até às associações, escolas e
lugares centrais das povoações, proporcionando, através do empréstimo
domiciliário, o acesso ao livro pela população.
É com
base nesta iniciativa local que em 1958, por sugestão de Branquinho da Fonseca,
a Fundação Calouste Gulbenkian cria um serviço similar ao existente em Cascais,
mas de forma a possibilitar a cobertura a todo o território nacional. O serviço
das Bibliotecas Itinerantes foi dirigido por Branquinho da Fonseca até 1974,
ano da sua morte.
Apesar de na
altura em que era prestado este nobre serviço, se viver sob o regime ditatorial
chefiado por Oliveira Salazar, que não tinha qualquer interesse em que o povo
se tornasse um pouco mais instruído, porque quanto mais ignorante mais
manipulável se torna, este teve um papel fundamental no desenvolvimento cultural das
populações.
Foi desta inoperância intencional por parte do estado em cumprir
com uma das missões a que esta obrigado e que consiste em criar condições de
forma a proporcionar o acesso a educação, cultura e informação do povo, principalmente ás classes mais desfavorecidas, porque as classes mais favorecidas esse acesso é-lhe mais favorável, que este serviço teve um sucesso extraordinário, como é
patente no número de pessoas que lhe acediam.
Entendo que o
serviço foi essencial para que muitas das pessoas que viviam nos locais mais
periféricos, ou até considerados remotos, tivessem oportunidade no o acesso
aos livros, que de outra forma seria difícil. É consciente destas
dificuldades e pela sensibilidade de quem na altura liderava a fundação
Calouste Gulbenkian que o serviço floresce sustentado num muito nobre principio
“quando o homem não busca o livro deve o livro buscar o homem” .
Em Dezembro de 2002 é extinto este serviço, em virtude de condicionalismos financeiros e, pelo facto de se ter iniciado a construção de
uma rede de bibliotecas fixas, mais modernas, de acordo com os princípios
emanados do manifesto da UNESCO, produzido em 1980.
No entanto, e
essa é uma convicção minha, acho que apesar de tudo, a sua extinção foi
precipitada, porque o Portugal mais profundo necessitava e, ainda hoje precisa de
um tipo serviço itinerante adequado, claro está, aos tempos actuais, de forma a fazer chegar o livro às
pessoas que vivem nos lugares mais periféricos de alguns concelhos, onde as
dificuldades, quer económicas, quer de mobilidade, ainda hoje persistem. Desta
forma a manutenção desse serviço seria, sem dúvida, uma mais-valia, para
eventualmente ajudar a crescer e a formar crianças, jovens e até adultos com perspectivas melhores e mais positivas e, dota-las de saberes necessários a encararem o mundo com mais confiança.
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